Ainda lembro de você sorrindo no corredor segurando um copinho plastico com café, você usava uma camisa colorida horrorosa e conversava com alguém quando eu percebi que eu queimaria seu guarda-roupa inteiro se você me deixasse na sua cama em um domingo de manhã.
Você voltaria com um saquinho de pães e me flagraria acendendo um cigarro no meio de toda aquela zona, e assim iniciaríamos toda uma vida com camisas lisas e pele em brasa.

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Perambulei pela casa fria com o edredom nos ombros até perceber que era um dia de sol. As 14h tomei meu café da manhã, e ali com a xícara quente de café nas mãos percebi como amar era uma coisa tremendamente difícil.
Eu to falando de amor, sabe? Não de acordar cedinho com um lado da cama quente, presente de dia dos namorados, almoços de família e planos de viagem.
Não.
To falando sobre amor mesmo. Desses de sentir saudade do cheiro, do gosto e de se trancar no banheiro do bar pra chorar sentada na privada.
Eu to falando de uma musica ensurdecedora, tão alta, mas tão alta que parece que seus batimentos cardíacos entram em sincronia com aquela multidão a sua volta, e todos se movem alterados, com a boca aberta e o coração berrando.
O problema da multidão é que estamos todos na merda, e existe uma fila pra chorar escondida dentro do banheiro.

madrugada

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A noite inunda ruas, avenidas, becos, casas, janelas, camas e ventres. A escuridão se deixa dominar por postes e casas persistentes com suas lampadas, tvs e olhos iluminando todo um breu que devora.
A vida pode ser ouvida daqui.
O zumbido dos fios elétricos dos postes, o microondas ligado na cozinha, gotas de resquícios de chuva ainda dançam por calçadas, lajes, telhados e corações. O grunhido de filhotes de cães pelo assoalho, um choro de criança ao fundo, uma multidão grita de prazer em um orgasmo, mulheres choram violentadas, homens urrando seu desespero com copos quebrados na pia e na alma, o ronco dos que sonham, a respiração lenta dos que não carregam culpa, cigarros sendo tragados lentamente, passos nas ruas, poucos carros cruzando a avenida em direção a todos os lugares.
A vida pode ser ouvida daqui aos berros.
A lua vibra com a língua afiada e as penas abertas, ainda é carnaval lá fora.
Minha madrugada é vazia, mas meu bem.. toda essa solidão é ensurdecedora.

Pra onde vai todo o amor que se perde?

Foto: Caroline Mackintosh

Foto: Caroline Mackintosh

Eu danço sobre o assoalho de madeira durante as tardes, trago cigarros como tragava teus sorrisos: sem misericórdia.
Deito-me nua na cama sob lençóis frios e limpos, deixo a janela aberta pro sol seguir o caminho que suas mãos já fizeram: das coxas a nuca.
Minha pele sua mas não queima, ela vibra.
Pra onde vai o amor?
Me movo com qualquer batuque, meus lábios sorriem como se fossem reflexo ao corpo nu e aos pés no chão.
Teu amor eu guardei entre minhas pernas, teu desejo se enroscou em meus pelos, pintas e cicatrizes.
Mas e o amor que se perde?
Meu bem, já é fevereiro e todo amor perdido você prova com a língua em meu decote.

cutículas

Acabaram meus cigarros, hoje às 19h35 .

Meu espirito se incomoda, talvez seja pelo sol que ainda não se pôs,  ou os ruídos dos filhotes que preenchem o silêncio de hora em hora com seus granidos, ou só o cheiro de 2015 que não se alterou em nada a 2015, mas confesso: eu esperava mais.

Mantenho meus cabelos curtos agora, eles se enroscam, se armam e se assemelham a qualquer rebeldia iminente em meu peito. Não me movo, aperto o play do controle remoto e me livro de qualquer amarra em meu corpo.

Os filhotes defecam e urinam pela casa, me levanto e limpo, desinfeto e espero, espero o dia inteiro.
Meus cabelos se enroscam neles mesmo, mechas em caracóis selvagens. Eu limpo, desinfeto e espero.

Veja bem, me considero longe de um diagnostico depressivo, mas aqui estou.. daqui a pouco já é carnaval e essa vácuo vai parecer nunca ter existido, logo voltarei aos transportes públicos, as cervejas geladas na calçada e ao riso fácil.

Sonho o tempo todo, tenho um emaranho de desejos utópicos em mim, mas ao que parece eu só espero
Limpo, desinfeto e espero, mas o cheiro.. ah 2015, como eu esperava mais.

Me arranque sorrisos que eu lhe arranco a camisa.

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Despida minhas essências e caminhe pela casa com meu cheiro em teu pescoço.
Porque hoje sinto que falta ar em mim, me falta brasa e alma.
Tenho toda uma vida em desejos e conspirações lacrados em mim pela inercia. Veja bem, aqui onde estou não consigo nem chorar a cada inspiração perdida. E pesa em meu peito, em meus olhos e meus pelos.
Não sei mais viver a flor da pele , cortei meus cabelos no inverno e agora carrego cachecóis do mesmo jeito que carrego arrependimentos: no braço esquerdo.

Então despida-me dessa inquietude, arranque todas as peças sob minha pele, e me deixe ao sol.
Assim queimo e viro brasa
Despida em brasa queimo em tua pele
Em tua pele, eu despida e feita em brasa queimo teus desejos.
Teus desejos em brasa em minha pele nua, faz florescer crua a minha sanidade.

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